O autor entrega o manuscrito e espera o texto de volta melhor em todos os sentidos. Recebe um arquivo com vírgulas corrigidas e reclama. Ou pede uma revisão ortográfica e recebe o livro reescrito. Relatos desse tipo se repetem entre autores independentes e profissionais de edição, e a causa raramente é a competência do revisor: é a ausência de acordo sobre qual das três revisões está sendo contratada.
O mercado editorial trabalha com níveis distintos de intervenção no texto, cada um com escopo, momento e preço próprios. Conhecer a diferença evita retrabalho e pagamento em dobro.
Revisão ortográfica: a última demão sobre as páginas
A revisão ortográfica corrige o que está objetivamente errado: grafia conforme o Acordo Ortográfico, acentuação, maiúsculas, hífen, separação silábica na quebra de linha, pontuação claramente incorreta e erros de digitação. Corretores automáticos fazem parte desse trabalho; o revisor humano faz o restante, como distinguir "há" de "a" pelo contexto.
Ela entra no fim, depois da diagramação, sobre as páginas já montadas, porque é ali que surgem os erros de quebra: a palavra dividida no lugar errado, a linha órfã, o título isolado no pé da página. Por isso é chamada de revisão de prova. Não mexe em frase mal construída, não sugere cortes nem aponta contradições entre capítulos.
Revisão gramatical: a frase certa, com a decisão final do autor
Um nível acima, a revisão gramatical cuida da construção: concordância, regência, colocação pronominal, tempos verbais, crase, paralelismo nas enumerações, ambiguidades e vícios de repetição. Uniformiza também o que a ortografia deixa em aberto, como aspas, itálico, forma dos números e apresentação de citações.
O revisor lê como leitor e percebe o sujeito perdido numa frase de sete linhas ou a alternância sem critério entre "você" e "tu". Cada intervenção fica registrada, e o autor decide o que aceita. A revisão gramatical não reorganiza capítulos nem reescreve o que está correto mas fraco.
Revisão editorial: a obra inteira sob exame
A revisão editorial, conhecida como preparação de texto ou copidesque, trata o livro como obra. O preparador lê o manuscrito completo e avalia estrutura, ritmo, clareza, coerência e adequação ao público. Aponta o capítulo que demora a engrenar, a explicação repetida três vezes, o personagem que muda de nome, a tese anunciada na introdução e abandonada no meio. Propõe cortes, fusões e deslocamentos, e indica reescrita onde a frase correta não diz o que o autor quis dizer.
É a etapa que mais melhora um livro e a que mais exige do autor, porque parte do trabalho volta para ele. Dela sai a folha de estilo, o conjunto de decisões que guiará a diagramação e as revisões seguintes. A preparação acontece antes da diagramação, sobre o manuscrito em Word; diagramar um texto que ainda vai passar por ela é pagar a diagramação duas vezes.
A ordem que o mercado adota
Editoras seguem uma sequência fixa: preparação de texto no manuscrito; revisão gramatical no texto preparado; diagramação; revisão de prova nas páginas. Cada etapa pressupõe a anterior. Nem todo livro precisa das três: uma obra técnica de autor experiente, já lida por pares, pode ir direto à revisão gramatical, enquanto um romance de estreia quase sempre se beneficia da preparação. A revisão de prova, dizem os profissionais, é a única inegociável: o leitor perdoa um argumento fraco, não perdoa "excessão" na página 12.
O que exigir de quem revisa
Ao contratar, o autor deve nomear o nível desejado e pedir que as intervenções fiquem visíveis, com o controle de alterações do Word ligado ou, em plataformas, com a versão original preservada e a possibilidade de retorno a ela. Texto devolvido "limpo", sem marcação, retira do autor o direito de discordar. A folha de estilo, ainda que simples, também deve ser entregue: é ela que garante que a página 300 siga o padrão da página 3.
Como as plataformas automáticas tratam o tema
No Meu Livro Pronto, a revisão aplicada é ortográfica e gramatical, sobre o texto enviado, sem reescrita nem reorganização. O recurso é opcional, ligado ou desligado antes da geração, e o manuscrito original fica guardado: o autor pode voltar ao texto exatamente como escreveu, sem custo, pelo painel. A preparação de texto, por envolver decisões sobre a obra, permanece como trabalho humano, e a orientação da plataforma é que seja feita antes do envio do arquivo.



